Acesso à cultura para juventude na periferia de Rio Preto
O acesso à cultura é bastante desigual no Brasil segundo dados do IBGE. Mesmo em uma cidade de com mais de 400 mil habitantes, com um dos melhores IDH do país, como é o caso de Rio Preto essa realidade não é muito diferente. A cidade oferece bons cinemas, livrarias, academias de dança, shows musicais. Realiza um dos mais famosos Festivais de Teatro do Brasil. Possui equipamentos culturais de alta qualidade do próprio município, bem como de outras instituições como SESC e SESI.
Através de uma série de entrevistas com jovens moradores de bairros da periferia da Zona Norte da cidade buscamos mapear o acesso que a juventude moradora desta região tem a cultura oferecida pelo município.
1. Qual é o conceito de cultura? Qual atividade melhor a representa?
2. Quais atividades culturais puderam ser realizadas online neste ano de pandemia?
3. E antes de 2020, quais eram os hábitos? Frequentava cinema? Teatro? Shows? Museus?
4. E quais são os hábitos de leitura?
5. Qual o conhecimento de eventos como o Festival de Teatro ou Virada Cultural ou outras atividades culturais promovidas pelo poder público?
6. Qual o acesso a cursos gratuitos ou pagos de música, teatro, dança...? E de seus conhecidos?
7. Qual a importância da cultura para esse jovem cidadão?
8. Acredita que o poder público deveria investir mais em cultura nas periferias?
METODOLOGIA
A pesquisa está baseada em uma
etapa qualitativa (entrevistas em profundidade) e quantitativa (questionário
online) feita através da metodologia conhecida como bola de neve.
Na etapa qualitativa foram
entrevistados 10 jovens residentes em bairros da zona norte de Rio Preto, com
idades entre 16 e 29 anos e renda familiar até R$3.500,00.
A partir desta escuta foi
elaborado um questionário online (google forms) que foi compartilhado, via
whatsapp, obtendo um total de 87 respostas válidas.
A proposta deste projeto é traçar um panorama inicial do
conceito e da apropriação de atividades culturais pela juventude periférica do
município. Obviamente, a pequena amostragem não pode ser considerada
representativa do universo em questão, mas os achados permitem uma reflexão
sobre como a juventude vê e consome cultura na cidade, podendo abrir caminho
para uma investigação mais aprofundada que venha a nortear as políticas
públicas do município.
Achados
Nas entrevistas começamos a
entender os principais símbolos de cultura para estes jovens: arte, quadros,
música. Vale destacar que o esporte também foi mencionado como símbolo de
cultura pela sua conexão com a identidade brasileira.
No entanto, quando perguntados
sobre as atividades culturais que fazem parte do seu cotidiano todos
mencionaram os filmes e séries online, especialmente durante a pandemia. O
consumo de música também faz parte do cotidiano, com destaque para o samba,
pagode, sertanejo, funk (MCs), axé, sofrencia e outros ritmos populares.
Pensando em atividades presenciais a maioria costuma ir a eventos com música ao
vivo, seja shows ou rodas de pagode. Gostam de frequentar os cinemas dos
shoppings para assistir os principais lançamentos, quando possível porque é um
programa considerado mais caro.
Para a maioria a cultura é consumida
apenas como espectador. Apenas um jovem diz ter ido a aulas de teatro em
um projeto cultural e outra frequentou por algum tempo o Projeto Guri. Alguns
costumam tocar instrumentos de percussão em rodas informais com amigos. Uma
jovem contou ter participado de um grupo de hip hop quando era mais jovem,
deixando de frequentar por ter engravidado com 17 anos. Também não conhecem
pessoas próximas que atuem na área cultura, tendo um grupo musical ou
participando de grupo de teatro ou dança, por exemplo. Citaram alguns
conhecidos que produzem canais de vídeo, tentando ser influenciadores.
Nenhum jovem assistiu um
espetáculo teatral depois dos tempos de escola que proporcionava peças infantis,
e embora boa parte tenha ouvido falar do Festival Internacional de Teatro de
Rio Preto ninguém teve a oportunidade de assistir uma peça apresentada no
evento, mesmo em espaços públicos.
A visita a museus, que também são
lembrados como um símbolo de cultura, é outra atividade mencionada na época da
escola, embora não se recordem exatamente a qual exposição foram. No entanto,
manifestam interesse em conhecer museus famosos, como o MASP, que já ouviram
falar através de matérias na televisão ou outras mídias. Apenas uma jovem com
formação universitária afirma ter ido a museus em São Paulo quando estava na
faculdade.
Quanto à leitura, a
maioria reconhece não ter lido praticamente nenhum livro depois de sair da
escola. Por outro lado, dois jovens declaram gostar muito de ler e fazem sempre
que possível, embora considerem ser difícil comprar e ter acesso a livros.
A dança ou a fotografia
não são lembradas quando falamos de cultura. Quando perguntamos diretamente
sobre essas atividades alguns se espantam uma vez que consideram que são coisas
que fazem parte do cotidiano, mas não arte ou cultura.
Ampliando a conversa sobre
cultura aparecem os games, as festas juninas e especialmente as igrejas
onde os cultos com música são vistos como um espaço onde tem cultura. Vale destacar,
que de alguma forma os jovens entrevistados associaram cultura ao esporte.
Perguntados sobre os espaços
culturais que a cidade oferece os shoppings e o recinto de exposições para
shows foram lembrados pela maioria. Também foram citados projetos culturais
(como As Valquírias), o SESC e novamente as igrejas. A existência de
bibliotecas públicas é conhecida, mas não são frequentadas, mesmo por aqueles
que declararam gostar de ler.
Outros eventos oferecidos pelo
poder público como Virada Cultural, Bienal do Livro, Janeiro da Comédia... não
são lembrados. Mesmo o SESC, que é visto como um espaço onde acontecem shows, é
lembrado e frequentado mais pelas atividades esportivas do que culturais.
Os jovens não conhecem nem
frequentam espaços culturais públicos em seus territórios. Festas e outros
locais privados como bares são mencionados como lugares com música, onde podem
interagir e tocar algum instrumento. Não se lembram de nenhum evento ou
intervenção cultural realizados pela prefeitura na proximidade de onde vivem,
apenas os eventualmente promovidos por movimentos culturais ou religiosos.
A cultura é acessada por estes
jovens especialmente através da internet. Um lugar onde se pode encontrar todas
as músicas que desejar, assistir as lives dos artistas preferidos, ver boas
séries na Netflix (A Casa de Papel, por exemplo) ou no Youtube. Alguns
consideram que a internet também é uma boa forma de pesquisar sobre um assunto
de interesse, mas não sabem dizer um tema cultural que já tenham procurado, com
exceção de uma jovem que mencionou o Pinterest como uma rede bacana para
encontrar desenhos e pinturas bonitas.
A escola foi uma porta de entrada
para a cultura na vida destes jovens. Ler livros, ir ao teatro, participar de
uma feirinha de exposições e pinturas, festas juninas, visitar um museu local
são atividades lembradas nos tempos do ensino fundamental, quando crianças. Não
se nota a mesma lembrança quando falamos do Ensino Médio, que alguns não
chegaram a cursar.
A oferta de cursos e oficinas
culturais pelo município é conhecida, mas os jovens não sabem exatamente
explicar o motivo de nunca terem se interessado em participar. A rotina do dia
a dia, falta de estímulo ou simplesmente o fato de nunca terem considerado essa
possibilidade.
Apesar deste contexto, com pouca
convivência no ambiente cultural, todos consideram que a prefeitura poderia
destinar mais recursos para a área da cultura, para que todos tivessem mais
acesso. Sugerem que as atividades culturais deveriam acontecer também em locais
próximos de onde vivem, como praças ou escolas. Que muitas vezes sabem da
existência de eventos culturais na cidade, mas como dito por um menino, “não é
pra mim”. Acreditam que da mesma forma que o esporte, as atividades culturais
podem ajudar muitos jovens a encontrar um caminho, “sair da rua”.
W, 27 anos, mecânico, cidadão de Rio Preto
4. Etapa quantitativa
A partir das informações
coletadas na escuta presencial foi elaborado um questionário para ser
compartilhado pelos próprios participantes com os seus círculos de amizade, uma
metodologia conhecida como bola de neve.
O objetivo foi ter mais elementos
para confirmar as hipóteses levantadas na etapa qualitativa.
Apresentamos, a seguir, os
principais achados.
a. CONCEITO DE CULTURA
Para os jovens a cultura é
majoritariamente um sinônimo de arte. A música e os shows também são
considerados como uma representação da cultura por cerca de 20% dos jovens. Em
seguida, temos os museus e os quadros. Em uma proporção bem menor são lembrados
o Carnaval, o teatro, esporte, livros, cinema e balé.
Tabela 1:
Qual palavra melhor define
cultura (RU)
|
CULTURA É |
|
|
Arte |
24% |
|
Shows |
21% |
|
Música |
18% |
|
Quadros/pinturas |
10% |
|
Museu |
9% |
|
Teatro |
5% |
|
Carnaval |
5% |
|
Esporte |
2% |
|
Cinema/filme |
2% |
|
Livros |
2% |
|
Dança/Balé |
1% |
|
Fotografia |
0% |
|
Tv |
0% |
|
Feiras e exposições |
0% |
|
Jogos/Games |
0% |
a. HÁBITOS
Os jovens, em especial na pandemia,
consomem o que consideram cultura pela internet principalmente assistindo
filmes e séries. Os games e lives também são bastante populares. Vale ressaltar
que, a internet também foi usada por 20% dos entrevistados como uma fonte de
pesquisa sobre assuntos de interesse. Cinema e leitura foram as principais
atividades fora do mundo online.
Tabela 2: Atividades em 2021 (RM)
|
EM 2021 |
|
|
Assistiu series e filmes online |
86% |
|
Jogou games online |
52% |
|
Assistiu shows ou apresentações de
música online |
39% |
|
Assistiu vídeos para aprender sobre
algum assunto de interesse |
21% |
|
Foi ao cinema |
16% |
|
Leu pelo menos 1 livro |
15% |
|
Foi a algum espetáculo como teatro,
shows ou evento |
6% |
|
Tocou algum instrumento |
5% |
|
Foi a uma exposição ou museu |
0% |
Antes da pandemia as atividades
presenciais eram bem mais significativas. Metade dos jovens entrevistados
declaram frequentar lugares com música ao vivo e boa parte costumava ir ao
cinema. Os shows também são populares. A leitura e dança são um hábito para uma
parcela significativa dos entrevistados. No entanto, a frequência e uso dos
espaços culturais da cidade são baixos, apenas 10% dos respondentes afirmam ter
esse hábito.
Tabela 2: Atividades em 2021 (RM)
|
ANTES DA PANDEMIA |
|
|
Costumava ir a lugares com música ao vivo |
52% |
|
Costumava ir ao cinema |
43% |
|
Costumava ir a shows |
22% |
|
Costumava ler livros |
16% |
|
Costumava ir a lugares para dançar |
16% |
|
Costumava ir a feiras e exposições |
10% |
|
Frequentava espaços culturais sempre que podia |
10% |
|
Assistia uma peça de teatro quando podia |
5% |
|
Costumava participar de um grupo musical ou cultural |
3% |
b. EVENTOS E ESPAÇOS PÚBLICOS
Perguntados sobre os principais
eventos culturais e equipamentos públicos os jovens conhecem principalmente a
Biblioteca Municipal que já foi visitada por metade dos respondentes. O mesmo
acontece em relação ao Teatro Municipal, embora com uma porcentagem menor de
visitantes. O Recinto de Exposições é o espaço público com maior notoriedade e
uso. O SESC também é um espaço com bastante visibilidade, mas ressaltar que na
fase exploratória observamos que o principal uso do espaço é para a prática de
esportes.
Tabela 3: Conhecimento de equipamentos e eventos públicos
culturais
c. FORMAÇÃO
Poucos jovens entrevistados
participaram de atividades formativas na área de cultura tanto as oferecidas
pelo poder público, quanto por instituições privadas. No entanto, cerca de um
terço dos respondentes declara ter o desejo de participar. Mais uma vez cabe a
reflexão sobre os motivos que levam estes jovens a não aproveitar as
oportunidades oferecidas pelo município para ampliar a sua formação cultural.
Tabela 4: formação
|
PARTICIPAÇÃO EM OFICINAS OU CURSOS |
|
|
Nunca participou |
58% |
|
Não participou, mas gostaria de ter participado |
31% |
|
Participou em instituição pública |
7% |
|
Participou em organização privada |
5% |
d. FRASES DE CONCORDÂNCIA
Os participantes foram estimulados a opinar sobre diferentes
aspectos da política cultural. A grande maioria concorda, ao menos em parte,
que poderiam ser destinados mais recursos para área de cultura pela prefeitura.
Também é opinião geral que o esporte e em menor medida a cultura são muito
importantes para a formação do cidadão. A escola é vista como um lugar que
proporcionou contato com atividades, mas com restrições já que nem todos
concordem totalmente com esta afirmação. E os espaços culturais nos bairros não
reconhecidos como promotores de cultura pelos jovens respondentes.
Tab
5. Considerações finais
O levantamento nos mostra que o
consumo de cultura para o jovem morador de periferia está muito ligado à
música, tanto virtualmente quanto frequentando shows e outros locais com música
ao vivo. No entanto, não existe uma diversificação dos gêneros musicais
preferidos se concentrando em ritmos populares como sertanejo ou funk.
Os filmes, séries e mesmo o
cinema fazem parte do cotidiano e são bastante valorizados, sendo uma
importante porta de acesso a outras culturas, mesmo que os títulos preferidos
sejam os mais famosos e populares.
Este jovem é principalmente um
espectador, são poucos os que tem a oportunidade de tocar um instrumento ou
participar mais ativamente de qualquer atividade cultural. O contexto do seu
dia a dia não estimula a diversificação e produção cultural: o círculo de
amizades têm hábitos semelhantes e o local de residência não proporciona
atividades culturais diferenciadas.
A leitura é um hábito para uma
parte dos respondentes, mas na sua maioria os jovens relacionam os livros aos
tempos da escola e não como uma atividade cotidiana ou prazerosa. Outras
atividades como dança ou fotografia que fazem parte do cotidiana não são
reconhecidas como cultura, demonstrando de uma certa forma o próprio conceito
de cultura não é claro para muitos respondentes.
Outras atividades culturais como
o teatro e as artes plásticas são valorizadas, mas de uma certa forma são
consideradas algo fora do seu universo, que não faz parte da própria vida.
Eventos como o Festival de Teatro de Rio Preto são conhecidos, mas muitos
jovens demonstram um certo espanto quando perguntamos se já haviam assistido
uma peça.
Embora tenham o conhecimento da
possibilidade de frequentar gratuitamente um curso oferecido pelo município
esta oportunidade não é aproveitada, mesmo por aqueles que demonstram
interesse.
De forma geral a cultura é
valorizada e considerada algo importante, mas o que notamos é que mesmo com a
boa oferta cultural do município os jovens participantes da pesquisa não
consideram a cultura como algo que faça parte de suas vidas. Se lembram com
carinho das peças infantis do tempo da escola, falam com admiração sobre a
possível visita a um museu... Vale refletir se a sociedade e o poder público
realmente estão proporcionando esta possibilidade.
Certamente a escola é um bom
ponto de partida, mas já no Ensino Médio a formação e a produção cultural são
deixadas de lado e poucos têm a oportunidade de retomar ao longo da vida.
Uma aproximação com o universo
dos jovens usando uma linguagem que facilite a comunicação, a priorização na
realização de eventos diversificados próximos aos territórios, nos moldes do
programa Ponto de Cultura, e o estímulo à criatividade e à produção cultural
destes jovens podem ser bons caminhos para a democratização da cultura no
município.
De qualquer forma seria muito
importante ampliar a escuta da juventude para, em conjunto, construir uma
política cultural consistente, acessível e conectada com os novos tempos.
Download:
Sumário Executivo
Formulário Pesquisa online
https://drive.google.com/folderview?id=1sYHJ_lEVTvLyaxX0ch_Szq30zdfrDFWD
Fontes de pesquisa:
Pesquisa Juventudes e Pandemia
2021: www.atlasdasjuventudes.com.br
Pesquisa Retratos da Leitura no
Brasil: www.plataforma.prolivro.org
Cultura e Juventude - Teses Usp: www.teses.usp.br
Realização: Fernanda Lima
com recursos de incentivo do Prêmio Nelson Seixas 2021 da Prefeitura Municipal
de São Jose do Rio Preto
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